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Entre os bonecos de minha brincadeira vivia um, de raro mistério, que se mexia sozinho, mudando de lugar entre os outros dentro da mala. Um dia esqueci a mala aberta e ele escapou, saiu pela noite da cidade. Não sei onde andou, voltou antes do sol raiar, estava sujo e cansado, parecia mais velho. Revirou a mala agarrou a viola e se sentou num canto da mesa entre os copos vazios de vinho e pedaços de pão que deixei da noite em claro procurando por ele. Tocou levemente nas cordas como não havia tocado jamais, acordes soavam como se tivessem sendo tocados pelo vento. Cantou canções que falavam dos cães, mendigos, bêbados, prostitutas e drogados que encontrou, tentou falar das crianças perdidas da noite, vendendo flores, drogas e assuntos que nem ousou... Ele não sabia dessas crianças ocupado que estávamos sempre com as crianças do nosso dia-a-dia. Perguntou se eu sabia, fiz que sim, perguntei o que mais ele tinha visto, o "suficiente" disse e se calou deixando escorrer um fio de lágrima pelas fibras da madeira do seu rosto. Ficamos com a melodia da canção suspensa enquanto ele, abrindo espaço entre os outros bonecos inertes na mala, também se encantou. Foi a última vez que o vi movendo-se sozinho.

Chico Simões

Cali, 1 de maio de 2016

*Pequeno conto baseado na canção; Trovador de Barro Negro de Silvio Rodriguez  

Culturas populares e Políticas públicas

Cultura popular não é o que se chama tecnicamente de folclore, mas uma linguagem em permanente rebelião histórica. O encontro dos revolucionários desligados da razão burguesa com as estruturas mais significativas desta cultura será a primeira configuração de um novo signo verdadeiramente revolucionário.
Glauber Rocha

 

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